segunda-feira, 8 de junho de 2009

inventário das malas


"De um dia para o outro, apareceram as malas na pequena área cimentada. Como eram peludas, com fechos e pregos dourados sobre tiras de couro, davam a impressão de cavalinhos ajaezados que ali descansassem, encostados uns aos outros.
Até a hora de abri-las, as pessoas andavam por perto, com respeitoo e curiosidade, mirando-as em silêncio, tristemente. Umas eram só de livros, tão bem ajustados na arrumação que não se sabia como poderiam ser deslocados. Mas também não era oportuno começar por aí, pois os livros deviam passar diretamente para as estantes, o que pouparia tempo e trabalho.
Desapertadas as correias das outras malas, levantadas as tampas, começaram a aparecer as mais surpreendentes coisas que, retiradas lá de dentro, iam sendo amontoadas em grupos diversos pelo chão. Havia a capa de viagem, de um tafetá furta-cor, que sussurrava suavemente ao ser desdobrado; fantasias de dominó (oh! como isso nos impressionava!) e camisolões de seda com umas rendas finíssimas que as pessoas entendidas consideravam com atenção. Havia vestidos complicados, com blusas internas, mangas duplaas, golas altas... Eram cor de cana, cor de pulga... Assim diziam, em redor.
Mas o que mais entristecia os circunstantes eram os lençóis com lavores de crivo, e as franhas com monogramas, coisas que jamais tinham sido usadas - e o desperdício de amor dos cetins bordados de flores (tão altas e vívidas que pareciam naturais) de um enxoval muito mais longo que o casamento. Viam-se as mãos da jovem morta passar ainda sobre bastidores, com suas finas agulhas e seus longos fios sedosos.
Eram assim as malas. Vinham dentro delas muitos objetos complicados: esstojos de madrepérola que serviam para guardar relógios; vidros pars perfumes, caixinhas para alfinetes, porta-jóias com fundo de cetim capitonné, grandes colchas de renda e pequeninos lenços que, amarfanhados, ficavam do tamanho de um amor-perfeito.
A mudança vinha de perto e tinham aproveitado algumas das malas para o transporte de certos objetos delicados. Eles vinham protegidos por uns cortinados intermináveis e a pessoa que os acondicionara estava presente e retirava-os com extrema precaução. Apareciam xícaras de café, de chá e até de chocolate. Umas eram alvas, lisas, transparentes e sua beleza residia nessa pureza impecável; mas em outras estavam pintadas lindas flores e, em algumas, figuras encantadoras conversavam à sombra de árvores, com ar tão feliz que se gostaria de ouvir o que estavam dizendo.
Sobre tantas coisas lindas - e haviam bules e castiçais, espátulas de marfim, bandeijas de charão... - as pessoas suspiravam enternecidas e magoadas. Para que servem as lindas coisas deste mundo? Para que serve as sombrinhas de cabo de coral e os grandes leques de plumas? Pra que servem os relógios de cintura, com suas longas correntes e pulseiras de fio de ouro trançado?
Estavm esperando por umas barricas onde devia vir a louça, que, segundo comentavam, era muita e muito pesada, com umas travessas imensas para os assados, umas fruteiras de muitos andares, coisas que certamente não viriam a figurar - pelo menos tão cedo - em mesas de festas - pois o tempo das festas parecia, agora, acabado.
Foi quando apareceu por entre as malas uma caixa com muitos frasquinhos intactos, tendo por cima das rolhas como um chapeuzinho de papel plissado. Eram lindos de ver, e tinham nomes que nem todos liam com facilidade. Chamavam-se Ipecacuanha, Briônia, Sanguinária, Acônito... Eram muitos, muito bem fechados, com aqueles chapeuzinhos de cores. E sobre eles, especialmente, as pessoas entristeciam mais: enquanto as malas iam sendo abertas, falavam da brevidade da vida humana, do frágil destino dos homens, dos poderes secretos de D-us. E sacudiam vestidos com peitilhos de renda, pousavam na mesa objetos de cristal, iam e vinham em redor daquele mundo extinto, recordando seus donos invisíveis, e as rápidas alegrias esvaídas no tempo e murmurando palavras que pareciam belas: felicidade, esperança, amor."


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Branca, preta ou amarela. A ariana zela. Tem caráter dominador, mas pode ser convencida... E aí, então, fica uma flor: Cordata... E nada convencida. Porque o seu denominador É o amor. (Vinícius de Moraes)